iso enigmático e arrancou uma asa do pato. Mel e gordura
escorreram-lhe pelos dedos e pingaram-lhe na barba quando
mordiscou a carne tenra. Já não há dragões, pensou Dany, de
olhos fixos no irmão, embora não se atrevesse a dizê-lo em voz
alta.
Apesar disso, naquela noite sonhara com um. Viserys batia
nela, a machucava. Ela estava nua, atrapalhada de medo.
Fugiu dele, mas o corpo parecia pesado e desajeitado. Ele
bateu nela de novo. Ela tropeçou e caiu. "Você acordou o
dragão", gritava ele enquanto lhe dava pontapés. Acordou o
dragão, acordou o dragão." Tinha as coxas escorregadias de
sangue. Fechou os olhos e choramingou. Como que em
resposta, ouviu-se um hediondo som de rasgar e o estalar de
um grande fogo. Quando voltou a olhar, Viserys tinha
desaparecido, grandes colunas de chamas trguiam-se por toda
a parte e, no meio delas, estava o dragão. Virou lentamente a
grande cabeça, guando os olhos fundidos do animal
encontraram os dela, acordou, tremendo e coberta por uma
fina película de suor. Nunca tivera tanto medo...
... Até o dia em que seu casamento por fim chegou.
A cerimônia iniciou-se de madrugada e prosseguiu até o
crepúsculo, um dia que parecia não ter fim de bebida, comida
e luta. Um monumental talude de terra fora erguido entre os
palácios de erva e Dany foi colocada ali sentada, ao lado de
Khal Drogo, sobre o fervente mar de dothrakis. Nunca vira
tantas pessoas no mesmo lugar, nem pessoas tão estranhas e
assustadoras. Os senhores dos cavalos podiam vestir tecidos
ricos e usar doces perfumes quando visitavam as Cidades
Livres, mas a céu aberto mantinham os velhos costumes.
Tanto os homens quanto as mulheres trajavam vestimentas
de couro pintado sobre os peitos nus e polainas de pelo de
cavalo cilhadas por cintos com medalhões de bronze, e os
guerreiros untavam suas longas tranças com gordura que
tiravam de fossas abertas. Empanturravam-se de carne de
cavalo assada com mel e pimentões, bebiam leite fermentado
de égua e os vinhos delicados de Illyrio até cair e cuspiam
ditos de espírito uns aos outros, por cima das fogueiras, com
vozes ásperas e estranhas aos ouvidos de Dany.
Viserys estava sentado logo abaixo dela, magnífico numa
túnica nova de lã negra com um oragão escarlate no peito.
Illyrio e Sor Jorah sentavam-se ao seu lado. Era deles o lugar
de maior honra, logo abaixo dos companheiros de sangue do
khal, mas Dany percebia a ira nos olhos lilás do irmão. Não
gostava de estar sentado abaixo dela, e exasperava-se sempre
que os escravos ofereciam os pratos primeiro ao khal e à
noiva, e lhe davam para escolher entre as porções que eles
recusavam. Nada podia fazer além de embalar o
ressentimento, e foi isso que fez, com o humor a tornar-se
mais negro com o passar das horas e dos insultos à sua pessoa.
Dany nunca se sentira tão só como enquanto esteve sentada
no meio daquela vasta horda. Seu irmão lhe dissera para
sorrir, e portanto sorriu até lhe doer o rosto e as lágrimas lhe
subirem ros olhos sem serem convidadas. Fez o melhor que
pôde para escondê-las, sabendo como Viserys ficaria zangado
se a visse a chorar, aterrorizado com a possível reação de
Khal Drogo. Era-lhe trazida comida, peças fumegantes de
carne, grossas salsichas negras, tortas dothraki de sangue, e
mais tarde frutos, guisados de erva-doce e delicadas tortas
doces vindas das cozinhas de Pentos, mas afastou tudo com
gestos. Seu estômago dava voltas e sabia que não conseguiria
manter nele qualquer alimento.
Não havia ninguém com quem falar. Khal Drogo gritava
ordens e brincadeiras aos companheiros de sangue, e ria de
suas respostas, mas quase não olhava para o seu lado. Não
tinham nenhuma língua em comum. O dothraki era
incompreensível para ela, e o khal sabia apenas algumas
palavras do valiriano adulterado das Cidades Livres, e nem
uma única do Idioma Comum dos Sete Reinos. Ela até teria
acolhido bem a conversa de Illyrio e do irmão, mas estavam
demasiado afastados para ouvi-la.
E assim ali ficou, sentada em suas sedas nupciais, embalando
uma taça de vinho com mel, com medo de comer, falando em
silêncio consigo mesma. Sou do sangue do dragão, disse a si
própria. Sou Daenerys, Filha da Tormenta, Princesa da
Pedra do Dragão, do sangue e semente de Aegon, o
Conquistador.
O sol estava apenas no primeiro quarto do céu quando viu o
primeiro homem morrer. Soavam tambores acompanhando
algumas das mulheres que dançavam para o khal. Drogo
assistia sem expressão, mas seus olhos seguiam-lhes os
movimentos e, de vez em quando, atirava-lhes um medalhão
de bronze para que elas o disputassem.
Os guerreiros também assistiam. Por fim, um deles entrou no
círculo, agarrou uma dançarina pelo braço, atirou-a no chão e
montou-a ali mesmo, como um garanhão monta uma égua.
Illyrio dissera-lhe que aquilo poderia acontecer. "Os dothrakis
acasalam como os animais de suas manadas. Não há
privacidade num khalasar, e eles não compreendem o pecado
ou a vergonha como nós."
Dany afastou o olhar da união, assustada ao compreender o
que estava acontecendo, mas um segu